Por: Nicolás Bico
Esta era a manchete do jornal “El diario” no Uruguai em 31 de julho de 1970. Naquela época, o pequeno país vivia um momento agitado devido à instabilidade econômica, política e social em que se encontrava. Os Tupamaros haviam sequestrado o norte-americano Dan Mitrione e o cônsul brasileiro Aloysio Días Gomide.
Mas quem eram os Tupamaros?
O nome “Tupamaros” vem do apelido que as autoridades espanholas da época colonial, no Río de la Plata, atribuíram aos patriotas que aderiram ao movimento de independência de 1811. A palavra teve sua origem na revolta indígena ocorrida no Vice-reinado do Peru, liderada pelo indígena Túpac Amaru II, e que foi duramente reprimida pelos espanhóis.
Apesar de ser o Uruguai um país com tradição democrática e boa coesão social, a instabilidade econômica dos anos 60 e a vizinhança (ou contexto) não ajudaram a manter tal tradição. O bairro (América Latina) vivia uma das realidades mais quentes da guerra fria. O Uruguai era como uma bela casa em um bairro pobre. Não só pobre, mas terrivelmente desigual, o mais desigual do mundo. E a bela casa não era mais tão bonita, tinha um alicerce que precisava ser consertado. Assim, havia um processo de deterioração econômica e social.
Vozes se levantaram contra a gestão política do país e, em novembro de 1964, apareceu, pela primeira vez, um folheto distribuído em uma convenção universitária onde se lia: “T N T Tupamaros no transamos”. Uma tradução desta frase para o português é menos engraçada, do que esperamos. Seria: “T N T Tupamaros não negociamos”.
Algum tempo depois, a assinatura “Tupamaros” apareceu, em 9 de agosto de 1965, no volante que acompanhava uma poderosa bomba que explode os tanques da empresa alemã Bayer. A mesma assinatura consta dos panfletos que acompanham uma bomba que explode na embaixada do Brasil em Montevidéu.
Em junho de 1968, o então presidente eleito Jorge Pacheco, em 1967, tentando suprimir uma série de protestos trabalhistas, declarou estado de emergência e revogou todas as garantias constitucionais. O governo prendeu dissidentes políticos, usou de tortura durante interrogatórios e manifestações foram reprimidas brutalmente. Essas ações governamentais foram fundamentais na decisão dos Tupamaros de recorrer à luta política armada e à violência política. Assim, em 1968, ocorreu um ataque e detonação à rádio Ariel, o primeiro dos dois sequestros do presidente da empresa de energia, Ulysses Pereira Reverbel, e um assalto ao Hotel Casino Carrasco, com roubo de vários milhões de pesos para financiar a luta armada. Por que Dan Mitrione e Aloysio Días Gomide foram sequestrados? Foi a primeira vez que o movimento sequestrou estrangeiros. Do lado brasileiro, é claro que Gomide, que passou 205 dias em cativeiro, não foi a melhor importação de produtos do Brasil que chegaram ao Uruguai. Gomide era filho do diplomata José Gomide Júnior, que, em 1955, foi nomeado Vice-Cônsul do Brasil em Miami, Estados Unidos. De 1957 a 1959, trabalhou em San José, Costa Rica. Em 1961, foi transferido para Roma. Acompanhou as delegações brasileiras nas reuniões da Organização das Nações Unidas para a Educação e Cultura – UNESCO, Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação – FAO, Organização dos Estados Americanos – OEA e Conselho Econômico Interamericano e Social. Em 1967, foi nomeado Cônsul do Brasil em Montevidéu, Uruguai. Ele havia sido indicado pelp governante do Brasil, Emílio Garrastazu Médici, que foi o terceiro presidente da ditadura militar de 1964, com mãe uruguaia.
Do lado de Mitrione, sua vida e morte são dignas de uma telenovela. Em 1960, a agência norte-americana International Cooperation Administration, foi designada para atuar em países da América do Sul para instruir em “técnicas avançadas de contra-insurgência”. Mitrione foi enviado ao Brasil para ilustrar à polícia técnicas de tortura por eletrochoque para que os detidos não morressem no processo. Sob a direção de Mitrione, o programa de segurança pública dos Estados Unidos no Uruguai “introduziu um sistema nacional de carteira de identidade, como no Brasil, e a tortura se tornou rotina na sede da polícia de Montevidéu”.
De 1960 a 1967, Mitrione trabalhou na polícia brasileira, primeiro, em Belo Horizonte, e depois, no Rio de Janeiro. Retornou aos Estados Unidos em 1967 para compartilhar suas experiências e ser instrutor no combate à guerrilha na United States Agency for International Development. Cosculluela, agente da contra-espionagem cubano que conseguiu se infiltrar na CIA e era “colega” de Mitrione no Uruguai. Seu livro “Passaporte 11333. Uruguai, oito anos com a CIA”, lembra a maneira que usava a tortura: “A dor exata no lugar exato na quantidade exata para conseguir o efeito desejado”. (p. 286) “Mitrione considerava o interrogatório uma arte complexa. O período de amolecimento teve que ser executado primeiro, com os golpes e humilhações usuais. O objetivo era humilhar o cativo, fazê-lo compreender seu estado de indefeso, desligá-lo da realidade. Sem perguntas, apenas golpes e insultos. Depois, golpes exclusivamente silenciosos. Depois de tudo isso, o interrogatório ”. Em 1969, ele foi enviado para o Uruguai para trabalhar na Agência para o Desenvolvimento Internacional, a fim de assessorar e apoiar a segurança pública do Uruguai. Naquela época, o governo era presidido por Jorge Pacheco Areco. O país vivia um clima de agitação social, em um contexto de deterioração econômica pronunciada. Washington temia uma possível vitória da esquerda nas eleições de novembro de 1971. Mitrione alugou uma casa com porão para ensinar.
Com o aumento das tensões no Uruguai e do uso da tortura, em 31 de julho de 1970, os Tupamaros sequestraram Mitrione e o cônsul brasileiro Aloysio Días Gomide. Nathan Rosenfeld e Michael Gordon Jones, adido cultural e segundo secretário da Embaixada dos Estados Unidos, que também foram sequestrados, conseguiram escapar.
Em 2 de agosto do mesmo ano, por meio do Comunicado nº 4, os Tupamaros exigiam a liberdade de todos os presos por sedição, que somavam cerca de 150, e a eventualidade de partir para o México, Peru ou Argélia, em troca da liberdade dos sequestrados. O governo uruguaio, com o apoio dos Estados Unidos, declinou.
Em 5 de agosto, os Tupamaros emitiram novo comunicado em que marcava a noite de 7 de agosto de 1970 para efetivar a troca oferecida e ameaçavam que, após esse prazo, se dispunham a “fazer justiça”. O presidente Pacheco Areco declarou que não negociaria a troca oferecida. Dois dias depois, Claude L. Fly, um funcionário americano contratado pelo Ministério da Pecuária e Agricultura, foi sequestrado. Finalmente, no dia 8 de agosto, os Tupamaros enviaram sua declaração nº 9 a diversos meios de comunicação: “Hoje às 12 horas Dan Anthony Mitrione será executado”. Nem uma palavra sobre Aloysio Días Gomide ou de Claude Fly foi dita.

Em 9 de agosto, um patrulheiro que realizava rondas, encontrou um carro Buick 1948 estacionado em uma área escura, relatado como roubado. No banco de trás, vendado, amordaçado e baleado várias vezes, estava o corpo de Mitrione. O Presidente Pacheco Areco declarou luto nacional e convocou o Conselho de Ministros. Ao meio-dia, a Assembleia Geral foi convocada com urgência, a qual, após várias horas de deliberação, declarou suspensos os títulos individuais por 79 votos em 100 presentes. A repercussão foi mundial. O secretário de Imprensa da Casa Branca, em extenso comunicado, disse que o povo americano “une-se ao presidente Nixon para condenar este crime a sangue frio contra um ser humano indefeso”. A dedicação de Mitrione à causa do progresso pacífico em um mundo ordenado é um exemplo para os homens livres. Um avião militar americano carregava o caixão embrulhado na bandeira dos Estados Unidos. Ele desembarcou em Richmond. Em seu velório estavam, entre outros, Frank Sinatra e o comediante Jerry Lewis, que até cantou em um show para arrecadar dinheiro para os nove filhos de Mitrione, que certamente não sabiam o que estava acontecendo no porão de sua casa em Montevidéu.
No mesmo mês de agosto, a esposa de Gomide, María Aparecida Gomide, preocupada com o destino de seu marido, se reuniu com guerrilheiros na prisão e perguntou nas rádios do país se o presidente do país negociaria com os Tupamaros. Aparecida volta ao Brasil e pede a intermediação do chanceler Mário Gibson Barboza e do presidente Medici. Eles se recusaram, alegando que não poderiam interferir nos assuntos internos de outros países. Em dezembro do mesmo ano, os Tupamaros renunciaram à libertação dos presos, exigindo um resgate de um milhão de dólares. Aparecida inicia campanha no Brasil, com o apoio da apresentador Chacrinha, para arrecadar fundos para a libertação do marido. Em janeiro de 1971, $ 250.000 (duzentos e cinquenta mil dólares) foram arrecadados. Aparecida Gomide volta ao Uruguai e segue negociando com os Tupamaros, que exigem o fim do estado de sítio promulgado pelo Congresso uruguaio para a libertação do diplomata brasileiro. No dia seguinte, ao término da suspensão das garantias individuais, em fevereiro de 1971, Gomide foi libertado e voltou imediatamente ao Brasil, onde foi recebido pelo ditador Emílio Médici.
Como costumava dizer a cantor Zitarrosa do Uruguai “Mi pueblo no es argentino, ni paraguayo, ni austral, Se llama Pueblo Oriental, Por razón de su destino, Pero recorre el camino, De sus hermanos amados, El de tantos humillados, El de américa morena, La sangre de cuyas venas, También late en su costado, Mi pueblo no estuvo ausente, Ni mucho menos de espaldas, A la trágica y amarga, Historia del continente, Fuimos un balcón al frente, De un inquilinato en ruinas, El de américa latina, Frustrada en malos amores, Cultivando algunas flores, entre Brasil y Argentina”


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