Por: Sérgio Ubiratã
A primeira audição da obra La Margarita aconteceu em meados da década de 1990 quando euera aluno do curso de espanhol no CELEM da Universidade Federal do Paraná – UFPR, em Curitiba. Naquela oportunidade o professor de nome Marcelo apresentou-nos a faixa otoño. Recordo a sensação da musicalidade, os vocais e principalmente a imagem que o soneto transmitiu. “entonces eligió hojitas secas para pisar y el juego volvió el dorado más luminoso”.
Mas quando conhecemos o autor e sua história, a construção do imaginário, que nos presenteia com os 15 sonetos… ouvir o CD tem um outro sabor.
São 15 faixas que, como contas de um rosário, ou capítulos de um conto nos dá a dimensão do sentimento, e porque não dizer, platônico, que ele possuía para com a sua Margarita e pergunto aos leitores e leitoras quem não teve na sua infância ou juventude a sua Margarita?
Maurício Rosencof, dramaturgo, poeta, jornalista uruguaio foi um dos perseguidos e presos pela ditadura militar de 1973 – 1985, junto com outros 08 integrantes do Movimento de Libertação Nacional – Tupamaro, entre eles o nosso icônico José Mujica e Eleutério Fernandez Huidobro. Na prisão, privado dos meios básicos de existência e fazendo escambo com os guardas, trocava cartas escritas de encomenda, por cigarros, pontas de lápis e outras preciosidades. Com os papéis dos cigarros escrevia versos, mensagens e principalmente buscava a saúde mental para sobreviver aos anos de clausura e muitas torturas física e mental. Nas costuras das roupas que enviava para a família lavar, conseguia esconder e traficar os papelotes com seus versos e histórias. No filme “Uma noite de 12 anos”, do Diretor Álvaro Brechner podemos nos aproximar daquela época de medo, repressão e resistência e sentir o quão fortes e perseverantes foram os nossos guerrilheiros.
Mas vamos falar da poesia dos 15 sonetos, sim sonetos, a forma mais clássica da poesia e de Jaime Roos o músico, cantor e compositor uruguaio que, em 1994, lançou a obra pelo Selo Orfeo, com arte gráfica do argentino Juan Lo Bianco. Num misto de Jazz, Tango, Milonga, Candombe e Rock. Roos musicou as quinze faixas e a participação do Maurício em duas delas – El Regreso e Em La Esquina – nos dá a devida conta da importância da obra. Com sobreposições de vozes e a justa repetição de partes dos versos, Jaime consegue nos transportar com a musicalidade a um filme aonde passamos a ser também, personagem da história contada por Maurício e conhecer cada nuance da sua Maga, como afetivamente chamava sua paixão.
Imagine-se nos anos de 1940, em um bairro de Montevideo… com 13 ou 14 anos surge o primeiro encantamento e esse o acompanha por toda a juventude. Esse é o resumo da história que nos é contada nos poemas. A primeira canção, El Regreso é uma apresentação da Margarita: Usaba blusa blanca y pollera tableada en paño inglés de pleno azul marino. – En su pobre roperito, lo más fino; con mocasines nuevos, quedaba ni pintada.” nela a voz de Maurício nos conta como era a Margarita.
A Cada faixa, um capítulo, uma história, um desafio para conquistar o coração daquela menina de bairro que de maneira tão peculiar sequestrou o coração do nosso guerrilheiro.
Convido então você a conhecer e se encantar com a obra: http://jaimeroos.uy/obracompleta/la-margarita/


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